terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Voadores



PARTE I

Cena Única

Interior de um pequeno apartamento. Fim de tarde. Luz dourada pela janela. Sala. Toda decorada com balões vermelhos pendendo do teto. Cem balões. Em cada balão, amarrados com uma fitinha mimosa, pendem cem corações vermelhos, de papel, em diferentes tamanhos. Cada coração contém uma das seguintes mensagens.

Pelo teu... riso, cheiro, beijo, abraço, mãos, olhos, calor, mau humor, bom humor, choro, inteligência, carinho, amor, silêncio, voz, gemido, sexo, visão, racionalidade, histórias, criatividade, caminhar, culinária, toque, pele, cabelo, sonhos, sinceridade, gosto, força, paciência, crença, perseverança, respiração, coração, boca, azedume, cócegas, bom gosto, mau gosto, beleza, belezas, dores, alma, gozo, certeza, luz, música, brilho, perfume.

Por nossos e nossas... Mãos dadas, risadas, banhos de chuva, voltas de bicicleta, noites, saudades, tesourinhas, pretzels, faltas, lágrimas, shows da Alanis, shows da GaGa, desacertos, reencontros, decepções, energias, vontades, caprichos, pores-do-sol, histórias, crimes cometidos, voos, músicas cantadas, pulos de cama elástica, animais de estimação, viagens ao exterior, necessidades, flores cultivadas,lasanhas queimadas, filmes, sorvetes de flocos, camas arrumadas, beijos de despedida, abraços demorados de chegada, músicas inventadas, cartas escritas, confissões realizadas,  frutas comidas no pé, banhos de rio, adormecidas sob as estrelas, valsas dançadas, árvores plantadas, nosso filho, costas esfregadas, noites mal dormidas, surpresas inesperadas, juramentos ao pé do ouvido, beijos na madrugada, sorrisos mais sinceros, amor mais verdadeiro.


Um último coração encontra-se no colo de uma ave cor de rosa sentada em uma cadeira no centro da sala.  No coração se lê: Aceita?
No aparelho de som, uma única música já está preparada.
No quarto ao lado, fora da cena, um ator aguarda o momento. Em suas mãos, uma minúscula caixinha, e dentro dela, os dois maiores símbolos.
A câmera já está ligada. A produção já abandonou o local para a cena. O ator espera no quarto ao lado.
Ele espera ansiosamente.
A câmera já está rodando.
Ele confere a caixa, sua roupa.
A câmera continua gravando.
Ele aguarda.
Pacienciosamente, ele aguarda.
Ele aguarda.
Aguarda.
Ele.

CORTA. 




PARTE II


Damascus - Nerina Pallot





"And knwoing that everything must end..."

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Dandelion


Era uma vez um muro qualquer que foi pintado de amarelo esverdeado. Porém, na primeira garoinha que deu, a tinta toda escorreu.
E a cada nova garoinha, a tinta escorria mais um pouco, pelo chão. Tanto foi que escorreu toda para um bueiro.

Três ou nove pessoas, que passavam por ali, sujaram os pés na tinta, marcando com ela todo o chão.
Mas que droga de tinta! - elas diziam - Isso não é tinta para uma parede! Me sujei em vão...

E na calçadinha defronte, ficaram as pegadas, de todos, por um bom tempo.
Mas em casa, as pessoas lavaram os seus sapatos e a tinta saiu rapidinho.

Qualquer garoinha tirava.



Once upon a time a wall that was painted all greenish yellow. But in the first drizzle it took, all the ink spilled off.
And with each new drizzle, the ink ran off a little more, on the ground. So much so that all the ink trickled down 
to the culvert.


Three or nine people who passed by, soiled their feet in the paint, scoring with it all over the floor.
What the hell! - the people said - This is not a paint for walls! I soiled myself in vain...


And in the sidewalk in front, the people's footprints have layed down there for a long time.
But at home, people washed their own shoes and the ink came out quickly.


Any little drizzle takes it off.




domingo, 30 de outubro de 2011

O de cada um


Havia um menino.  E no topo de um pináculo havia um animal de três cabeças, acomodado em um cercado. Todos os dias, o menino fazia o trajeto em direção ao cercado, para alimentar o animal. O caminho era íngreme e pedregoso, repleto de ervas daninhas e insetos, que o castigavam a cada desnível que seus pés pequeninos venciam.
Se era por compaixão ou paixão, ele não saberia dizer. Mas fazia isso.
Um dia, após vencer mais um pedregulho, este particularmente pontudo, o menino encontrou, no topo do pináculo, além do cercado com o animal de três cabeças, uma mulher em andrajos, o rosto marcado com cicatrizes, que observava o animal com particular interesse.

- Este animal é o teu? – Perguntou-lhe a mulher.
- Sim – Respondeu pronta e inocentemente o menino.
- E porque o alimenta?

O menino apenas a observa. Quê dizer?

- Olhe para os teus pés e pernas, em feridas, por vencer essa encosta escarpada.  Olhe para as tuas costas, curvadas do peso dessa labuta. Olhe para tua fronte, queimada e marcada dos sóis que enfrentaste. E agora me diga: Porque o alimentas?

O menino não sabia o que responder. Nunca havia percebido a encosta escarpada, com suas pedras pontudas e moitas espinhosas, nem o grande número de parasitas e insetos que por ali pululavam ao sol escaldante.

- Sabes o que carregas?

Por um momento o menino havia se esquecido da mulher.

- Como?
- Sabes o que carregas? – Perguntou-lhe a mulher, calmamente.

O menino olha para seus braços. A pele lanhada e queimada das ervas e do sol. Vê seus pés, arroxeados e inchados pela truculência das pedras e, pelo que pareceu ser a primeira vez pois – não mais se lembrava de ter visto isso antes – viu-se segurando um enorme vasilhame de madeira.

- São pérolas. – Disse-lhe a mulher. – Isso o que você carrega em seus braços, meu filho, são pérolas.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Percepções



Percebo a saudade dela no dia a dia dele. Em como as vezes ele não tem caminho,
em como ele vai, e em como ele volta. Pra quê direção?
Em como ele observa os mesmo documentos, as mesmas jóias, as mesmas fotos e cacarecos,
como que a espera de um novo detalhe passado despercebido pela vista cansada.


Escuto sempre como se fosse a primeira, embora já tenha ouvido mais de uma vez,
a história da partida dela. 
E enquanto ele fala, eu observo a fluidez de seu corpo que se inclina pra frente, a cabeça 
que balança, as mãos que se levtantam no ar, a todo o momento que ele verbaliza,
sem precisar o seu "Porque?". 


Eu jamais me constrangi em ouvir, e desejo muito que nem ele ao falar, embora eu saiba 
que enquanto ele se seca com o lenço por baixo dos óculos esses pensamentos venham a sua
cabeça.
Obervo suas mãos, com os dedos entrecruzados, os polegares se acariciando, seu olhar 
resignado e o sorriso espremido.


E assim ficamos alguns minutos em silêncio, cada um com suas lembranças.
Revivendo na memória aquilo que guardamos.
Tão de repente quanto a conversa um convite: Toma um mate?
Meu avô é constrangedoramente simples. Sincero.
Sem saber ele sempre me ensina, seja sobre a saudade, seja sobre viver.